Que mundos criamos a partir do que vemos?

Que mundos criamos a partir do que vemos?

O que você vê?

Eu vejo uma menina… Livre, infantil, ingênua, dentro do seu próprio mundo. Se descobrindo, se testando. Provando pra si mesma que é capaz de fazer pequenas coisas como se trocar sozinha, escolher sua própria roupa, tomar seu banho, no tempo que achar conveniente. Uma menina autorizada que não precisa fechar portas, que não tem vergonha de si mesma, nem da sua mãe, nem da sua casa. Uma menina sem medo, que se sente bem, que se sente bem com seu corpo, que se sente livre e totalmente a vontade na presença de sua mãe, honrando seu corpo puro e inocente.

A fotografia documental verdadeira só acontece assim… Quando fotógrafo e fotografado se entregam, quando eles dividem um certo grau de intimidade que nada tem a ver com relacionamentos amorosos mas com se sentir entregue, se sentir bem, se sentir a vontade na presença um do outro. E é a partir desta relação, que o fotógrafo consegue ver, criar e interpretar o mundo de quem ele fotografa.

O mundo que eu quero criar para a minha filha através da documentação genuína do que é ser uma menina de sete anos é exatamente este. É quase como se eu estivesse me despindo da minha própria filha. Um olhar de mãe que quer criar e incentivar o SER através das coisas boas, através do que é positivo e construtivo. Saudável, bondoso e corajoso.
Onde o instinto do “quero te proteger” ensina a lutar ao invés de tirar da guerra; ensina a embarcar em experiências e se preparar para elas ao invés de negá-las; incentiva e se envolve com os seus sonhos, desejos e crenças porque, mesmo que sejam diferentes das minhas, mostra a riqueza de se aprender e crescer com as diferenças; autoriza e conforta o choro e a dor ao invés de censurá-los. Incentivar, apoiar e oferecer ajuda caso dê tudo errado. Proteger através do fortalecendo e da união.

“A cultura que nos trouxe até aqui não precisa ditar como vamos querer que seja daqui pra frente”, diz uma grande amiga minha. Porque, tanto ela quanto eu acreditamos que nossas filhas podem, e de fato irão, mudar o mundo. Assim a gente espera!
Um mundo melhor, com menos medo acima de tudo. Esse medo que assola e isola as pessoas. Medo de falar, medo de amar, medo de assumir as vontades, medo de fazer certo, medo de fazer errado, medo de perder, medo de ganhar, medo de chorar, medo de mostrar, medo de fazer diferente, medo de não ser suficiente, medo de ser demais, medo de não dar conta. Eu me recuso a apostar nestes medos,  porque eu me sinto altamente diminuída por eles. Eu vejo um mundo “fearless", porque sou assim, e a partir disso alimento o meu mundo, o da milha filha e o daqueles que se juntam a mim nesta jornada de luz, potência e muitas cicatrizes, muitas mesmo.

Somos a geração de mulheres que apesar de termos crescido sob forte influência da cultura do patriarcado, viemos para olhar e incentivar as mudanças, enquanto nossas meninas, já vieram com 10 chips a mais de estabilidade para praticá-las. Que a gente possa dar asas ao novo mundo e elas possam voar com a força, o olhar, a beleza e a precisão de uma águia. Quem assistiu o filme Malévola (amo! rs) sabe do que estou falando: o rei corta as asas dela enquanto ela dorme. Ele corta a suas asas… Representando o que muitas mulheres viveram até hoje. Uma crítica ao “você quer demais” “você voa demais” “você sabe demais” “você é bonita demais” “inteligente demais” portanto, “cortaremos suas asas”. Só que hoje isso já não nos cabe mais.

Precisamos de um novo treinamento. Um que nos ensine a sustentar o tamanho dos nossos desejos e que nos tire dessa dormência generalizada fruto do lugar apertado que nos foi oferecido por tanto tempo. Assim poderemos parar com este vício cego de nos diminuir para caber e teremos finalmente a coragem e os músculos para sermos do tamanho que queremos ser.

- Mas e se eu cair?
Mas querida… e se você VOAR?

"Precisamos nos proteger de novo, precisamos nos acolher de novo, precisamos nos abraçar e sonhar juntas um mundo seguro para nós, nossas filhas e netas." Cler Barbiero, no meu post de 30 de Maio.

Em tempo, para quem quiser entender um pouco mais sobre as minhas inspirações e motivações para este trabalho documental sugiro dar uma olhada em:
Alain Laboile, fotografo Francês, pai de 6 filhos (!) que fotografa com maestria a liberdade, vastidão e atemporalidade do universo infantil dos seus filhos.
Sally Mann, uma das maiores fotógrafas Americanas que começou documentando seus filhos.
Panoptes Fotografia, casal de Brasileiros que acabaram de receber um grande prêmio internacional também com uma foto do documentário que eles fazem de seus filhos.

 

O CICLO DA ADOLESCÊNCIA

O CICLO DA ADOLESCÊNCIA

Entrevista para a Zupi onde eu falo sobre como surgiu o projeto e como me identifico com ele em cada sessão que eu faço.

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